21.6.06

O Bem/O Mal

Hoje li um texto que justificava a necessidade de fazermos o Bem porque o bem que fizermos aos outros será bem também para nós. E o mal que fizermos aos outros será mal também para nós.

Como cristão, acho esta uma justificação demasiadamente egoísta para fazermos bem. Na realidade, nunca me ocorreria tentar justificar algo que me parece tão óbvio (embora saiba que não o é para todos; pelo contrário).

Eu tomo o Bem como um conceito primitivo. E um "axioma" que está no núcleo daquilo em que acredito é que todos intuímos a urgência (à falta de melhor palavra) para fazermos Bem. É simplesmente o que nos é mais natural e verdadeiro.

5 comentários:

Gorduchita disse...

"Mais natural e verdadeiro"... para alguns pelo menos!
Infelizmente, não para todos, como se pode comprovar pelo estado geral da nação terrestre!

Zé Ribeiro disse...

Não acho que seja uma justificação tão egoísta como dizes.

Se os homens são todos irmãos ( porque, para um crente, todos filhos de Deus ), é razoável pensar que o bem/mal feito a outrem é também bem/mal, respectivamente, para nós.

Claro que o problema do Bem/Mal é mais complicado.

Se uma mulher engravida e por isto perde o emprego que assegura a sobrevivência de outros filhos, e decide abortar - faz o Bem ou o Mal?

Se num parto só se pode salvar uma das vidas mãe/filho e a da mãe é essencial para a sobrevivência de outros filhos - onde está o Bem e o Mal?

Qualquer pessoa decente, te dirá que não deves dar gratuitamente um pontapé num cão; porquê?

Já comeste lagosta suada? Já viste cozer a lagosta viva num tacho tapado, sem água? Já ouviste as pinças da lagosta a baterem aflitivamente no tacho? Sei que és contra; porquê?

Se o adjectivo "essencial" variasse em grau, eu diria que a questão do Bem/Mal é uma das questões mais essenciais que o homem se põe a si próprio.

Para mim, está ligada à questão do sentido das nossas vidas - o que fazemos aqui, se há ou não um caminho que estamos a percorrer, que vem de algum sítio e que leva a algum sítio ( os pontos de partida e de chegada até podem ser o mesmo ... ); e é um dos indícios da existência de Deus.

Zé.

/me disse...

Eu acho a ideia razoável. Acho estranho é que se tente justificar a necessidade de se fazer bem. Simplesmente deveria ser auto-evidente. Mas claro, isso é porque eu parto desse princípio.

Lagosta? Eca! :P

De resto, concordo contigo. principalmente quanto aos últimos dois parágrafos!

paulo,sj disse...

Irei fazer comentário... Não tenho tempo agora, mas vou pensar bem!! Aguardem... :)

paulo,sj disse...

/me antes de mais, em que contexto estava escrito o que leste? Isso pode ser importante.

Aqui está a ser abordado o bem moral, pelo que percebo.

Concordo contigo que o bem está inerente à condição humana. Mesmo correndo o risco de ingenuidade, acredito que todas, repito, TODAS as pessoas (tenho o mínimo de consciência do que digo) têm o bem em si. Corro outro risco, de seguir a linha de Rousseau com o seu mito do "bom selvagem" degenerado pela sociedade.

Mas este é um tema nada fácil, precisamente pela complexidade do próprio ser humano, nos seus vários níveis (social, cultural, religioso, etc). De facto há uma ética inerente à condição humana, precisamente por sermos racionais. Percebemos de fundo as necessidades básicas que temos e como as pôr em prática, algumas vezes de forma instintiva, outras de forma racional. Ora isto põe-nos diante do bem e do mal, mas em que contexto? Em que circunstância? Tenho de ver de que pressupostos parto. Eu posso estar a fazer algo que considero bem, mas noutro contexto é para esquecer, pois o que irei fazer pode ser a pior coisa a ser feita. O Zé Ribeiro dá bons (e bons, no sentido de acertados :p ) exemplos. Racionalmente tenho de decidir o que fazer. Muitas vezes não é nada fácil. Pela linha cristã, e é preciso muitas vezes ter muita fé, há que ir pelo perder para encontrar, deixar-me morrer pelo outro. (Claro que estou sujeito às críticas). Não é fácil, porque estamos em permanente tensão interior sobre o que eu quero e não quero.

Mais do que de decisões, dou exemplos reais da nossa complexidade. Sabem que, quando há problemas a bordo de um avião com necessidade de uma eventual evacuação de emergência, a primeira coisa que uma grande parte das senhoras querem proteger e levar consigo é a sua inseparável mala, ou bolsa, mais do que os próprios filhos? Isto é bem ou mal?

Outro: Um casal sai de casa com o seu filho, com o pequeno-almoço tomado. Vai beber café, o filho vê um bolo e quer. Os pais não lhe dão, porque sabem que não é o melhor para ele. Ele olha para os dois e diz: “São maus!”. Bem ou mal, aqui?

Outra questão, que é a principal abordada, é se faço bem à busca do meu bem., ou em relação ao mal… Não creio, se houve o mínimo de consciência, que se faça o bem de forma egoísta. Ou seja, fazemos o bem porque queremos dar de nós e isso acaba por reverter naturalmente (sem que o procuremos) em bem para nós. Abre-nos a compreensão, ajuda-nos a sermos humildes (aqui entendida como ser verdadeiro, saber qual o meu verdadeiro lugar), permite-nos ter um outro olhar pelo ser humano, não de condenação, mas de acolhimento. Sta. Teresa de Ávila, dizia: “Uma alma que se eleva, eleva o mundo, uma que se rebaixe (não no sentido cristão), rebaixa o mundo”.

Concordo também com o final do Zé, em que diz que percorremos um caminho. Acrescento que é um caminho que deverá levar-nos sempre a um crescimento. Passando por traçar objectivos: o que é que quero como pessoa que sou? E estando numa sociedade, o que é que quero dar aos outros? A minha abertura, ou meu fechamento?

Num outro comentário, já tinha escrito para viverem experiências concretas de entrega, acho que vale a pena, para perceber mais do que teorias, a prática de fazer o bem…

Desculpem se estiver meio baralhado, mas, como disse, tenho alguns pressupostos em mim. Se houver dúvidas, perguntem ou vamos para debate. Sintam-se à vontade!

Abraço apertado, com oração! (Vou mesmo agora à Capela, dizer um “Até Amanhã” ao JC! :p )